Era uma vez um crime organizado. Aquele que habitava as entranhas do submundo, escondido nos becos, nos presídios e nas sombras da clandestinidade. Como nas velhas histórias de alquimia, em que homens atravessavam séculos à procura da Pedra Filosofal, nossos personagens também descobriram o segredo de transformar tudo em ouro. Os negócios prosperaram, os horizontes se ampliaram e suas ambições logo ultrapassaram os limites da marginalidade. Já não era preciso se esconder nos porões sujos da sociedade quando se podia muito bem morar nos bairros mais nobres, nos condomínios de luxo, nas coberturas — e, de lá, alcançar os andares mais altos da República. Sem populismo e sem votos.
Enquanto a ópera promíscua de Brasília segue com seus mitos e mártires, o poder paralelo ergue seu império. Do requinte dos escritórios à brutalidade das ruas, o crime se infiltra no cotidiano sem que você sequer perceba. Abastece seu carro, te vende bebida adulterada, administra empresas de ônibus e circula pelos endereços mais sofisticados da Faria Lima. A velha caricatura do traficante pé-rapado, coberto de tatuagens, já não dá conta da realidade. Entram em cena executivos bem-vestidos, inteligentes e carismáticos, que aprenderam a dominar as engrenagens do capitalismo brasileiro. Eles movimentam fortunas, lavam dinheiro e circulam pela economia formal com a desenvoltura de um legítimo farialimer. Mas nem por isso os velhos hábitos foram abandonados. Nas comunidades, traficantes armados continuam patrulhando as ruas, barricadas delimitam territórios e a droga corre solta. A boa notícia do dia é ter escapado de uma bala perdida. A má é que amanhã começa tudo de novo.
O Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital tomaram conta do roteiro, convertendo nossa fábula tupiniquim numa distopia orwelliana. Os vilões agora recebem os aplausos da plateia, enquanto os heróis são silenciados sob o cano fumegante de um revólver. Ou de uma caneta. Afinal, o crime já não precisa escolher entre o fuzil e o terno, ele aprendeu a usar os dois. E o brasileiro, perdido entre telas e algoritmos, já não sabe se está sendo governado, explorado ou mantido refém.
Em meio ao espetáculo eleitoral, a segurança pública volta a ocupar o centro do debate, com candidatos disputando soluções para um monstro que levou décadas para crescer. Antes de escolher quem promete derrotá-lo, porém, convém descobrir quem abriu sua jaula. O império do crime não nasceu sob a tutela de Lula, Bolsonaro ou qualquer presidente recente. Suas raízes atravessam governos e remontam a um capítulo particularmente sombrio da nossa história, quando o próprio Estado, sem imaginar as consequências, ajudou a despertar o Demogorgon.
Em uma ilha paradisíaca, isolado entre o mar e a Mata Atlântica, o Instituto Penal Cândido Mendes era conhecido como Caldeirão do Diabo, um presídio marcado pela superlotação, violência e abusos. O nome parecia uma dessas profecias macabras, em que a tragédia se anuncia logo no começo do drama. Daquele inferno tropical abrir-se-ia o primeiro portal para um mundo invertido, cujas raízes subterrâneas avançariam silenciosamente até alcançar o coração da República.
Na década de 1970, o regime militar reuniu presos políticos e criminosos comuns sob o mesmo teto, numa convivência que teria consequências muito além das grades. Entre os cárceres estava William da Silva Lima, o Professor. Aproveitando-se daquele choque de realidades, ele assumiu a missão de espalhar a cartilha socialista pelas galerias, apresentando obras como “O Capital”, de Karl Marx, aos companheiros de cela. Anos depois, em 400 contra 1 – Uma História do Comando Vermelho, ele registraria como aquela experiência contribuiu para transformar a dinâmica entre os detentos. O que antes eram alianças de sobrevivência começava a ganhar organização e identidade próprias. Era o casamento profano entre a revolução armada e a disciplina; o trabalho sujo e a técnica. Dessa tempestade perfeita surgiria a Falange Vermelha, embrião do Comando Vermelho, uma das organizações criminosas mais poderosas do país.
Meio século depois, os números revelam a verdadeira dimensão da criatura que aquela aliança ajudou a despertar. Segundo levantamento da Universidade Federal Fluminense e do Instituto Fogo Cruzado, cerca de 4 milhões de pessoas — quase 35% da população da região metropolitana do Rio de Janeiro — viviam, em 2024, sob controle ou influência de facções criminosas e milícias. Dessas, 3,4 milhões estavam em áreas efetivamente controladas por grupos armados. Em menos de duas décadas, a extensão territorial submetida a esse domínio cresceu 130%. Não se trata apenas de disputar ruas e vielas, mas de impor regras, explorar atividades econômicas e determinar os limites da liberdade de quem vive nessas áreas. Em parte do Rio, o Estado ainda existe no mapa, mas já não detém sozinho o poder de mandar.
O inferno da Ilha Grande não seria, porém, o único portal aberto pela negligência do Estado. Duas décadas depois, outro presídio brasileiro se tornaria o berço de uma organização que faria da violência seu idioma e do poder seu maior negócio. Desta vez, o cenário era São Paulo, mais precisamente a Casa de Custódia de Taubaté, conhecida como Piranhão. Foi ali que, em 1993, durante um campeonato de futebol, oito detentos firmaram um pacto. Sob o discurso de união e defesa dos direitos dos presos, a facção criou um estatuto de 16 artigos e passou a impor suas próprias leis de trás das grades. Nascia uma espécie de sindicato do crime, com hierarquia rígida e punições que podiam custar a vida. O nome escolhido já estava estampado no time em que jogavam: Primeiro Comando da Capital.
O domínio das prisões seria apenas o ensaio de um projeto muito mais ambicioso. Em 2001, o PCC mostrou sua força ao coordenar rebeliões simultâneas em 29 presídios paulistas. Cinco anos depois, em maio de 2006, o poder cultivado nas cadeias transbordou para as ruas. São Paulo foi sacudida por ataques a policiais, ônibus incendiados e comércios fechados pelo pavor dos disparos. E o mais estarrecedor: parte das ordens partia de celulares escondidos nas próprias penitenciarias. O cárcere deixava de ser uma barreira para se tornar um centro de comando. Com o tráfico de cocaína, o PCC desbravou fronteiras, rios e florestas, expandindo seu império muito além dos muros da prisão. Na geografia exuberante do Brasil, encontrou a verdadeira rota do ouro.
Pelos igarapés da selva amazônica serpenteiam rotas clandestinas que ligam os países produtores de cocaína aos portos e centros de distribuição do Brasil. Sob a proteção natural da mata e longe dos olhos da fiscalização, o tráfico encontrou espaço para florescer. E onde há mercadoria circulando, há toda uma economia disposta a sustentá-la. Então, assim como fizeram outras organizações mafiosas, o PCC e o CV transformaram a violência em estruturas econômicas e políticas de grande influência. Combustível, embarcações, depósitos e serviços passaram a integrar uma engrenagem criminosa que se infiltra sorrateiramente por toda a região. E os dados atribuídos ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública traduzem essa escalada em números: em apenas dois anos, a atuação das facções saltou de 178 municípios da Amazônia Legal, em 2023, para 344 em 2025. O Comando Vermelho teria alcançado 286 deles.
A disputa pela soberania do território já ultrapassa, portanto, os discursos de Brasília. Mas isso, o governo Lula parece fazer vista grossa. Talvez resida aí uma das mais dolorosas contradições da esquerda. Enquanto erguem a bandeira da preservação ambiental, a outra forma de devastação que avança é completamente ignorada. A Amazônia não está apenas queimando por fora — está apodrecendo por dentro. Proteger a floresta também significa impedir que suas matas sejam apropriadas pelo crime.
Mas a cegueira não se restringe à floresta. O apodrecimento que o governo finge não ver na Amazônia desce pelo mapa e vai desaguar nas rodovias e portos do Nordeste. É por ali que a droga escoa, financiando uma guerra entre facções que colocou cidades como Maranguape (CE) e Jequié (BA) no topo do ranking do derramamento de sangue. Nesses lugares, o mal parece ter se incorporado ao cotidiano, a ponto de a barbárie já não causar o espanto que deveria. Uma inquietante versão tropical da banalidade do mal, conceito desenvolvido por Hannah Arendt ao acompanhar o julgamento do oficial nazista, Adolf Eichmann. Se no tribunal o oficial justificava atrocidades inimagináveis alegando que apenas cumpria ordens, aqui essa mesma ausência de reflexão moral se traduz na nossa passividade diante da carnificina do crime. A violência se naturaliza, o medo disciplina, o silêncio protege e a sobrevivência passa a obedecer a uma regra perversa: adaptar-se às trevas ou arriscar-se a ser engolido por elas.
Nesse narco-thriller, o PCC aprenderia que algumas das conquistas mais lucrativas acontecem longe da linha de fogo. Sem abandonar a brutalidade que sustenta o poder das facções, a organização paulista descobriria as vantagens da discrição, percebendo que certos negócios prosperam muito mais quando as armas permanecem fora de cena. A cocaína continuaria garantindo bilheteria, mas a criatura descobriria que havia fortunas a conquistar muito além do tráfico. É sob essa casca de normalidade que o crime dá seu passo mais sofisticado. O capital ilícito já não precisa se esconder nos guetos ou nas profundezas da floresta; ele pode circular pela padaria do bairro, pelo posto de gasolina e pela rede de supermercados.
Sabe aquela lojinha do bairro que vive vazia, mas inexplicavelmente sobrevive há décadas? Ela pode estar lavando dinheiro para facções criminosas. A novidade é que eles não precisam mais criar empresas de fachada. Às vezes, o negócio funciona tão bem que ninguém desconfia de nada. Tem funcionários, clientes, faturamento e até uma prosperidade invejável, sobretudo para os concorrentes que precisam sobreviver apenas com dinheiro honesto. A face mais perversa desse domínio talvez esteja justamente na sua banalidade. O PCC pode estar por trás tanto da droga vendida na esquina quanto do ônibus que leva seu filho à escola.
Em 9 de abril de 2024, a Operação Fim da Linha trouxe à tona suspeitas de ligação entre o PCC e duas empresas de ônibus de São Paulo, a Transwolff e a UPbus. Segundo as investigações, o esquema teria movimentado R$ 732 milhões entre 2020 e 2022. A facção que surgiu atrás das grades agora figurava nas investigações sobre um serviço essencial à vida urbana. O paradoxo é cruel: o Estado passou décadas tentando impedir que o crime organizado dominasse as ruas, mas não imaginava que ele pudesse chegar a elas pela porta da frente. A soberba do poder paralelo já não se manifesta em arrotos de arrogância. Solta gargalhadas na cara do Estado.
Mas, se a infiltração no transporte urbano já era assustadora, foi em agosto de 2025 que a ponta do iceberg finalmente rompeu a superfície. A Operação Carbono Oculto revelou uma sofisticada rede suspeita de lavar dinheiro para o PCC, envolvendo postos de combustíveis, fintechs e fundos de investimento. O dinheiro percorria um labirinto de empresas e operações financeiras até que seus verdadeiros donos desaparecessem atrás de sucessivas camadas de aparente legalidade. Fundos investiam em outros fundos, numa espécie de matriosca financeira em que a menor e mais profunda das bonecas escondia o dinheiro sujo.
A trilha do dinheiro também levou os investigadores à Reag Investimentos, uma das maiores gestoras independentes do país. Segundo a Receita Federal, a Operação Carbono Oculto identificou ao menos 40 fundos ligados à organização criminosa investigada, com patrimônio conjunto de R$ 30 bilhões. Parte desses fundos era administrada pela Reag, mas o valor total não pode ser atribuído à gestora nem considerado integralmente dinheiro do PCC. Entre os bens identificados estavam usinas de álcool, um terminal portuário, 1.600 caminhões e mais de uma centena de imóveis. As investigações também revelaram suspeitas de sonegação bilionária e coerção contra empresários, incluindo relatos de ameaças de morte. Nos escritórios, a sofisticação de Wall Street; nas negociações, os velhos métodos de Al Capone.
Com esse currículo, não chega a surpreender que a Reag também tenha entrado em cena em um dos maiores escândalos financeiros dos últimos tempos: o Banco Master. As investigações envolvem suspeitas distintas, mas o reaparecimento da gestora lança luz sobre um universo financeiro em que fortunas atravessam estruturas tão complexas que identificar seus verdadeiros donos pode se tornar uma tarefa quase impossível.
O enredo ganhou um novo plot twist quando chegou em Brasília. Na CPI do Crime Organizado, Alessandro Vieira apresentou um relatório que pedia o indiciamento de três ministros do STF — Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes — e do procurador-geral Paulo Gonet, por suspeitas de crimes de responsabilidade no caso Master. O documento foi rejeitado por seis votos a quatro, em abril de 2026, deixando a comissão sem relatório final. Apesar de os pedidos serem insuficientes para um veredito, o episódio colocou sob escrutínio autoridades das mais altas instâncias do país. Afinal, numa trama em que até os investigadores enfrentam questionamentos, quem fiscaliza os guardiões da República?
A pergunta não é nova, tampouco nasceu dos escândalos envolvendo o Banco Master. Para compreender há quanto tempo as fronteiras entre o crime organizado e as estruturas do poder despertam suspeitas, precisamos voltar a maio de 2006, quando São Paulo se transformou num cenário de guerra. Depois de interceptar conversas sobre rebeliões planejadas para o Dia das Mães, o governo estadual determinou a transferência de 765 presos para uma penitenciária de segurança máxima. Entre eles, Marcola, o líder do PCC. A tentativa de conter a organização teve o efeito de um fósforo lançado sobre um barril de pólvora. No dia seguinte, começaram rebeliões que alcançariam 74 unidades prisionais, enquanto ataques a delegacias, viaturas, bases policiais e prédios públicos espalhavam o terror. Policiais eram assassinados, a população se recolhia e a maior metrópole do país descobria que o inimigo não precisava estar nas ruas para dominá-las. No entanto, aquilo não se tratava de um ataque repentino. O governo havia recebido avisos claros.
No auge da crise, representantes do governo estadual chegaram a conversar com Marcola para tentar encerrar a crise. Cláudio Lembo, que assumira o governo após a saída de Geraldo Alckmin, negou qualquer acordo com a facção. Gravações atribuídas a integrantes do PCC também mencionavam supostos contatos na Secretaria de Segurança Pública, alegações insuficientes para comprovar infiltração. Ainda assim, aquela situação expunha um paradoxo difícil de ignorar. O Estado tinha as prisões, as armas e as chaves, mas não conseguia impedir que um homem, de dentro de uma cela, espalhasse o terror por São Paulo. Naquela inversão de papéis, o carcereiro guardava as chaves, mas era o prisioneiro quem dava as ordens.
Depois de aterrorizar São Paulo de dentro das prisões, o PCC descobriu que controlar o comércio de drogas exigia muito mais do que dominar bocas de fumo. Para fazer o lucro rodar, era preciso conquistar também a normalidade, aquela que circula pelas avenidas, espera nos pontos de ônibus e atravessa a cidade sem imaginar o que pode existir por trás de uma empresa que já faz parte do seu dia a dia. É nesse ponto que nossa fábula ganha um personagem interessante. A Transcooper, cooperativa de transporte alternativo que atuava em regiões de São Paulo marcadas pela presença do crime organizado, acumulava mais de 120 processos judiciais. E quem assumiu sua defesa? Alexandre de Moraes. Antes de vestir a toga do Supremo, ele havia comandado a CET e a SPTrans na gestão Kassab. Deixou a administração municipal no final de 2010 e, em janeiro de 2011, abriu seu escritório de advocacia, passando a representar a cooperativa em mais de uma centena de processos civis e administrativos.
A história ganhou pitadas sinistras em março de 2014, quando uma operação do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) surpreendeu uma reunião na garagem da Transcooper. Entre os presentes estava o deputado estadual petista Luiz Moura e, segundo os investigadores, pelo menos 13 pessoas suspeitas de ligação com o PCC. A suspeita era de que a facção comprava frotas de ônibus e as registrava no nome de falsos proprietários apenas para lavar as fortunas do narcotráfico. Alexandre de Moraes, por sua vez, negou qualquer ligação com a organização criminosa.
Naquela tarde, porém, não foi apenas o portão da garagem que se abriu aos investigadores. As portas do inferno também pareciam escancaradas, com o diabo à espera, contrato e caneta na mão. Só não imaginávamos que o mercado de almas estivesse tão aquecido.
Dos presídios às ruas, das empresas ao mercado financeiro, o crime organizado parecia estar em todos os lugares. Restava avançar sobre um território ainda mais cobiçado: os gabinetes da política. Nas eleições municipais de 2024, a inteligência paulista identificou 70 candidatos suspeitos de vínculos com organizações criminosas. Doze foram eleitos, incluindo dois prefeitos e dez vereadores. O crime, que antes precisava corromper autoridades, agora parecia disposto a conquistar suas próprias cadeiras no poder. Calma, que só melhora.
Em novembro de 2023, Luciane Barbosa Farias, conhecida como “Dama do Tráfico” e ligada ao Comando Vermelho no Amazonas, participou de um evento em Brasília com passagens e diárias custeadas pelo Ministério dos Direitos Humanos. Uma personagem ligada ao submundo do crime chegava à capital federal com despesas pagas pelo próprio Estado. Na nova narrativa da esquerda, o criminoso passou a ser relativizado por seu passado, seus traumas e suas privações, enquanto a vítima corre o risco de virar uma nota de rodapé. O aspecto mais perverso talvez não esteja no poder que o crime conquistou, mas no fascínio que passou a exercer sobre as novas gerações.
Nesse cenário, o fenômeno Oruam é emblemático. Filho de Marcinho VP, apontado como uma das lideranças do Comando Vermelho, o rapper conquistou multidões, reunindo quase 10 milhões de seguidores nas redes sociais. Oruam ostenta no corpo o rosto de Elias Maluco, condenado pelo assassinato brutal do jornalista Tim Lopes. O parentesco não o torna responsável pelos crimes do pai, tampouco a tatuagem comprova envolvimento com a facção. A questão é outra: o que acontece com os nossos referenciais quando a imagem de um criminoso condenado pode ser exibida como homenagem no universo das celebridades? O marginal conquista o centro, o proibido vira mercadoria e aquilo que antes carregava estigma passa a conferir status. Uma coisa é se deixar seduzir pelo bad boy do cinema, outra é glamourizar o crime.
Durante uma coletiva de imprensa na Indonésia, em outubro de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva botou ainda mais fogo nesse caldeirão. Ao comentar o combate ao narcotráfico, Lula declarou: “Os usuários são responsáveis pelos traficantes, que são vítimas dos usuários também.” Sua escolha desastrosa das palavras produziu uma inversão difícil de engolir: o traficante aparecia, ainda que por um instante, no papel de vítima.
Quatro dias depois, em 28 de outubro, o Rio de Janeiro protagonizou um dos capítulos mais sangrentos dessa história. A Operação Contenção mobilizou cerca de 2.500 agentes nos complexos do Alemão e da Penha, com aproximadamente 100 mandados de prisão destinados a integrantes do Comando Vermelho. O saldo foi de 121 mortos, entre eles quatro policiais, sendo dois do BOPE. Segundo a Polícia Civil, pelo menos 97 dos mortos tinham histórico criminal. Lula classificou a operação como uma “matança” e um episódio “desastroso”.
A grande ironia — ou não — é que, sob o chamado “governo do amor”, o mapa da violência continua assustador. Entre as dez cidades mais violentas do Brasil em 2025, oito estavam em estados administrados pelo PT. Segundo levantamento divulgado pelo Estadão, quatro em cada dez brasileiros afirmam perceber a atuação de facções como PCC e Comando Vermelho nas regiões onde vivem. Um retrato alarmante de uma realidade paralela, invisível para boa parte do país, mas onipresente na vida de quem aprendeu a sobreviver à sombra de uma arma.
Diante dessa escalada desenfreada, a pressão externa tornou-se inevitável. Ao mesmo tempo que a violência explodia no Brasil, crescia a divergência com os Estados Unidos sobre o enquadramento do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. Lula invocava a soberania nacional e os limites da legislação brasileira; Trump defendia medidas mais duras contra organizações criminosas transnacionais. Flávio Bolsonaro, por sua vez, alinhou-se à posição americana. O candidato à Presidência levaria pessoalmente essa pauta à Casa Branca, onde pediu a Trump o reconhecimento do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. Dias depois, Washington anunciou a medida.
Em 7 de março de 2026, Donald Trump reuniu aliados em Miami para lançar o Escudo das Américas, coalizão regional de combate ao narcotráfico. Brasil, México e Colômbia ficaram de fora. A ausência brasileira alimentou críticas à postura do governo Lula, interpretada como complacência diante da expansão das facções. Em reportagem recente, o Wall Street Journal comparou o PCC às clássicas máfias italianas, descrevendo sua ascensão de uma simples quadrilha prisional à engrenagem global do tráfico de cocaína. Segundo a matéria, a facção já soma cerca de 40 mil integrantes e associados em quase 30 países, conectando a América do Sul aos portos europeus e ampliando sua presença nos Estados Unidos.
Se é facção criminosa ou organização terrorista, pouco importa à vil criatura, que continua se alimentando da desgraça alheia. O que importa é que, nessa linha de fogo, milhões de brasileiros seguem reféns de uma guerra que jamais escolheram travar. O dinheiro pode ter alcançado os escritórios da Faria Lima, mas a violência continua fazendo seu barulho nas ruas. Em áreas controladas por grupos armados, moradores convivem com barricadas, fuzis, fronteiras invisíveis, cobranças e regras que jamais passaram pelo Congresso. As facções ditam quem pode circular, trabalhar ou explorar determinada atividade. Como a Hidra da mitologia grega, o crime organizado parece multiplicar suas cabeças a cada tentativa de cortá-las.
É nesse ponto que o Brasil se aproxima perigosamente de um velho fantasma latino-americano, bastante conhecido dos colombianos e mexicanos: o narcoestado. Em entrevista à Jovem Pan, o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, conhecido por suas investigações contra o PCC, alertou que o Brasil caminha “a passos largos” nessa direção. Nas eleições de 2026, Lula conquistou 72,6% dos votos válidos em presídios e unidades socioeducativas, contra 23,3% de Flávio Bolsonaro. O levantamento, realizado a partir dos boletins de urna do Tribunal Superior Eleitoral, revelou uma vantagem de quase três para um em favor do petista. Em outros tempos, um resultado desses seria considerado vexatório. Na era da glamourização do crime, parece ter se tornado status.
O fato, caro leitor, é que essa criatura não nasceu da noite para o dia. Foi alimentada nas sombras, cresceu sob os olhos do poder público e encontrou na omissão, na corrupção e na impunidade o banquete perfeito. Atravessou governos, sobreviveu a promessas e prosperou durante décadas, inclusive nos longos períodos em que o PT ocupou o Planalto. Chegou a hora de apontar o dedo aos culpados.
Seria confortável acreditar que esta fábula terminará com um herói montado num cavalo branco, pronto para derrotar o monstro e devolver a paz ao reino. Mas, não acredito em conto de fadas, tampouco em Flávio Bolsonaro como príncipe encantado. Acredito que a verdadeira mudança começa quando percebemos que, enquanto os algoritmos nos distribuem espadas imaginárias para travarmos guerras virtuais, o crime organizado disputa com o Estado as rédeas de um país de verdade. Talvez a saída não esteja em esperar por um herói redentor que venha salvar o Brasil das garras do comunismo. A solução é bem mais simples: basta não apertar o 13.
No dia 25 de outubro, mais um capítulo dessa história será escrito nas urnas. Se continuarmos assistindo à ascensão dessa criatura como se fosse uma obra de ficção, correremos o risco de deixar às próximas gerações uma herança maldita. Os bandidos continuarão recebendo os aplausos, enquanto os inocentes permanecerão reféns das barricadas. Quando as cortinas finalmente se fecharem, talvez percebamos, tarde demais, que a trilha sonora da nossa fábula não era apenas um jingle de campanha política, mas a marcha fúnebre de um país a caminho do narcoestado.







