As histórias têm o curioso poder de se transformar dependendo de quem as conta. Afinal, basta mudar o narrador que o herói ganha chifres, o vilão descobre um trauma de infância e um deles subitamente assume a cadeira presidencial. No Brasil, onde política e ficção dividem o mesmo roteiro, ambos trocam de papel como quem troca de figurino. E o vilão, coitado, já não precisa nem morrer no último ato. Passou por um rebranding cultural, ganhou contexto, justificativas, estética, dinheiro, poder e uma legião de admiradores. Quando a cortina finalmente desce, ninguém mais sabe a quem deve vaiar e a quem deve aplaudir. A confusão, porém, é intencional. Quem escreve essa fábula é o Grande Irmão e, no próximo capítulo, a ordem é aniquilar o bolsonarismo.
Talvez George Orwell não imaginasse que sua obra 1984 se tornaria tão palpável. A distopia retrata uma sociedade submetida à vigilância permanente de um regime totalitário, onde o Grande Irmão dita as regras e observa tudo e todos. Fatos inconvenientes são apagados, heróis fabricados, vilões condenados e documentos reescritos até que tudo caiba na versão oficial do Partido. Quando olho para o Brasil, às vezes me pergunto se tudo isso é mero acaso ou se Orwell, em vez de prever o futuro, estava apenas nos familiarizando com ele.
Nesse emaranhado de versões, poucos personagens da política brasileira foram tão capazes de ocupar os dois papéis ao mesmo tempo quanto Lula e Jair Bolsonaro. Como vimos no artigo anterior, Luiz Inácio Lula da Silva passou boa parte de sua trajetória oscilando entre esses extremos: já foi salvador, vilão, condenado, mártir e, mais uma vez, presidente. Por sua vez, Jair Bolsonaro acabaria protagonizando fenômeno semelhante, só que do outro lado do espectro político. Para uns, o “Mito”; para outros, a própria encarnação do autoritarismo. Jair deixou como legado um movimento tão poderoso quanto controverso. Em 2026, quem tenta conduzi-lo de volta ao Planalto é Flávio Bolsonaro, com o mesmo sobrenome, mas em temperatura bem mais baixa.
Esta, porém, não é apenas uma história sobre Flávio. Antes de olhar para o candidato, é preciso entender o campo minado em que essa eleição será travada. Afinal, a Fábula do 22 é também a história de uma direita engolida pelo Judiciário, das canetas implacáveis do nosso próprio Ministério da Verdade — com seus pesos e medidas muito peculiares — e do avanço silencioso de algo potencialmente mais perigoso que a própria polarização política. Para isso, precisamos voltar algumas páginas, ao capítulo em que esse campo político despertou e começou a enfrentar o sistema.
Após o governo Dilma, o velho teatro das tesouras começou a desmoronar, e o movimento conservador, antes adormecido, estava fervorosamente a redescobrir sua própria voz. Foi o cenário ideal para que o então deputado Jair Bolsonaro ganhasse destaque com seus discursos e se lançasse na disputa pelo Executivo. Para muitas pessoas, ele era o candidato perfeito para não chegar a lugar nenhum. Só que a internet provou o contrário. Ideias antes ignoradas alcançavam milhões nas redes, novas mídias furavam a bolha da grande imprensa e os veículos tradicionais começavam a perder o monopólio da narrativa. Boa parte do Brasil já estava cansada da mesma ladainha e encontrou em Bolsonaro algo genuíno, uma autenticidade quase bruta, que talvez ajude a explicar por que o apelido “Mito” pegou tão bem.
Foi mais ou menos assim que a direita brasileira ascendeu aos holofotes. Era uma direita embrionária que chegava em fragmentos, brigava consigo mesma e ainda nem sabia direito o que queria ser. Uma coisa, porém, era cristalina: não queriam o PT de volta ao poder. Pessoas que jamais haviam se definido como “de direita” começavam a se encontrar do mesmo lado do tabuleiro, embora ainda não soubessem exatamente onde mirar. Lula era o vilão mais óbvio, mas crescia a sensação de que havia algo maior por trás dele, a mão invisível de um Grande Irmão movimentando as peças. Então, criaram coragem, vestiram verde e amarelo, ocuparam as ruas, invadiram as redes e revolucionaram o jornalismo, alcançando o público sem precisar dos velhos “guardiões da verdade”. Bastava um celular.
Sem pedir licença à velha ordem, o perfeito azarão tocou fogo no parquinho e transformou o que parecia um teatro ensaiado em confronto real. Bolsonaro não era um personagem cuidadosamente introduzido no segundo ato, mas a materialização de um ressentimento que vinha se acumulando havia anos contra o establishment e contra a esquerda que dominava o centro do poder. “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” era seu grito de guerra. E assim, conquistou a Presidência.
Só que o Mito parecia não conhecer muito bem a arte de escolher inimigos. Comprou briga com a maior emissora do país e resolveu medir forças com ninguém menos que o ilustríssimo Alexerxes, o Grande — uma coleção de rivais poderosos que certamente não facilitaria sua sobrevivência política. Para piorar o cenário, três dos seus quatro anos de mandato foram assombrados por um vírus. A pandemia jogou uma pá de cal sobre o bolsonarismo. A resistência de Bolsonaro às vacinas e, sobretudo, a forma como conduziu publicamente a crise ajudaram a lhe render alguns dos rótulos mais pesados disponíveis no dicionário político. Cada tropeço virava manchete, cada frase ganhava replay, e a classe política engrossava o coro.
Nas eleições de 2022, Lula chegava oferecendo picanha; Bolsonaro, pagando a conta da própria língua.“Eu não quero o PT, mas o Bolsonaro não dá. Olha as coisas que ele fala…”, era uma frase reverberada por toda parte. De um lado, um candidato carregando quatro anos de frases capazes de incendiar qualquer grupo de WhatsApp. Do outro, um ex-presidente carregando escândalos de corrupção e uma condenação que fora varrida para debaixo do tapete. E foi aí que uma pergunta começou a me incomodar. Quando escolhemos um presidente, o que deveria pesar mais: as falas esdrúxulas de um candidato ou o passado nefasto de quem pretende “tomar” o poder? No final das contas, o cheiro inebriante da picanha falou mais alto.
Luiz Inácio Lula da Silva cruzou a linha de chegada com 50,90% dos votos válidos contra 49,10% de Jair Bolsonaro. Pouco mais de dois milhões de votos separavam os dois candidatos e, simbolicamente, dois países. Para metade do Brasil, era hora de soltar fogos. Para a outra, simplesmente o inferno na Terra. Mas o lado derrotado não se acomodou ao resultado. Em 8 de janeiro de 2023, o confronto saiu definitivamente das redes e entrou chutando a porta dos Três Poderes. Manifestantes invadiram e depredaram o Congresso, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal, com imagens que correram o mundo. Mal sabiam que estavam oferecendo ao Grande Irmão exatamente o pretexto de que ele precisava.
A resposta foi fulminante. As 243 prisões em flagrante daquele domingo seriam apenas o começo. Na manhã seguinte, os ônibus cercaram o acampamento diante do Quartel-General do Exército. Segundo relatos de detidos, a orientação era de que passariam por uma triagem e depois poderiam voltar para casa. No entanto, o destino foi outro. Ao todo, 1.927 pessoas foram conduzidas à Academia Nacional de Polícia, entre elas idosos, pessoas com problemas de saúde e manifestantes que afirmavam sequer ter participado das invasões. A advogada Edith Christina Medeiros, uma das vítimas, relatou à Gazeta do Povo que havia pessoas passando mal em meio ao calor, à fome e à falta de informações. Prisões, investigações, processos e condenações se multiplicaram. O Grande Irmão finalmente mostrava suas garras.
Alguns casos transformaram a punição em uma discussão sobre os próprios limites do Judiciário. Cleriston Pereira da Cunha, o “Clezão”, morreu na Papuda depois de mais de dez meses em prisão preventiva, quando já havia manifestação da PGR favorável à sua liberdade provisória. Débora Rodrigues, a cabeleireira que escreveu “Perdeu, mané” com batom na estátua da Justiça, recebeu 14 anos por cinco crimes relacionados ao 8 de Janeiro. Idosos, doentes e aposentados completavam aquele estranho exército golpista. Era quase como imaginar o Mr. Magoo, o Nerso da Capitinga e a Penélope Charmosa marchando para a guerra.
E havia Filipe Martins, ex-assessor especial para Assuntos Internacionais de Jair Bolsonaro, apontado pela acusação como um dos envolvidos na elaboração da chamada “minuta do golpe”. Ficou preso preventivamente por quase seis meses em 2024 sob justificativa de risco de fuga. Para sustentar a tese, a acusação usou contra ele uma suposta entrada nos Estados Unidos em 30 de dezembro de 2022. Martins negava ter feito a viagem e, em 2025, o próprio serviço de fronteiras americano concluiu que ele realmente não havia entrado no país naquela data. Segundo sua defesa, chegou a passar dez dias em uma cela solitária.
A mesma Corte, porém, já havia protagonizado uma cena bastante diferente. Em 2020, André do Rap, um dos líderes do PCC já condenado por tráfico internacional, deixou a prisão por deliberação individual do ministro Marco Aurélio Mello. Poucas horas depois, Fux derrubou o despacho, mas já era tarde demais. André sumiu e, seis anos depois, continua foragido. Diante disso, Romeu Zema apontaria um paradoxo difícil de ignorar: André do Rap desapareceu depois de deixar a prisão; Débora do Batom passou cerca de dois anos presa preventivamente. A comparação dispensa legenda.
Num país de carros blindados, condomínios murados e 95 celulares roubados a cada hora, o Estado parecia ter escolhido onde mostrar sua força. Centenas de pessoas ainda sem condenação descobriram, de uma hora para outra, que opinião também dava cadeia. E não estamos falando dos vândalos flagrados destruindo os prédios públicos, mas daqueles que sequer atiraram uma pedra. Enquanto o crime dominava as ruas, o rigor da Suprema Interferência encontrava endereço certo na política.
O STF ocupava uma posição particularmente esquisita nesse enredo. A Corte havia sido uma das instituições atacadas no domingo e, ao mesmo tempo, assumia papel central na investigação, no julgamento e na punição dos envolvidos. A defesa da democracia justificava o rigor da resposta, mas, à medida que prisões preventivas se prolongavam e condenações se acumulavam, uma pergunta começava a incomodar: até onde poderia ir o Estado para proteger as instituições sem atropelar as próprias garantias que dizia defender?
Inevitavelmente, chegou a vez de Bolsonaro. Em setembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo o condenou a 27 anos e três meses de prisão por cinco crimes relacionados à tentativa de golpe. A maioria dos ministros entendeu que as provas revelavam uma trama, enquanto a defesa sustentava justamente o contrário — era a própria tese do golpe que dava às provas esse significado. Luiz Fux destoou dos demais. Para ele, cogitações e discussões não haviam avançado o suficiente para configurar os crimes imputados, e Bolsonaro deveria ser absolvido. Foi voto vencido, quatro a um. A sentença estava dada.
É com esse pano de fundo que Lula voltaria ao centro do palco. Conforme vimos no artigo anterior, Luiz Inácio Lula da Silva não parece mais preocupado em esconder as antigas vestes vermelhas do Foro de São Paulo. Ao longo dos governos petistas, Lula e Dilma fizeram quinze nomeações para o Supremo; Flávio Dino foi uma das mais recentes. Ao celebrar sua escolha, Lula chegou a se referir a ele como o primeiro “ministro comunista” da Corte e, em agosto de 2025, prometeu ficar “cada vez mais esquerdista, mais socialista”.O mesmo Flávio Dino acaba de recorrer à liberdade de expressão para derrubar uma decisão de André Mendonça e manter no ar ataques e calúnias contra Flávio Bolsonaro — incluindo postagens sobre retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil e insultos que tachavam o clã de “família miliciana”. Para o Ministro, a retirada dessas fake news configuraria em censura. Curiosa elasticidade para quem já levou Monark à Justiça após ser chamado, entre outros insultos, de “gordola”.
Mas essa volatilidade promíscua não parece se limitar a Dino. Menos de um ano depois de prometer ficar “cada vez mais esquerdista”, Lula surpreendeu líderes internacionais no G7 ao declarar “nunca fui esquerdista”. E, às vésperas da eleição, veio uma guinada ainda mais abrupta. As bets, regulamentadas e licenciadas com a bênção de seu próprio governo, tornaram-se subitamente “a coisa mais horrorosa” que já havia visto. Uma epifania moral curiosamente cronometrada. A exatos nove dias de os brasileiros irem às urnas, Lula assinou uma medida provisória proibindo as apostas em todo o país. Primeiro, o governo regulamentou as bets, vendeu as licenças e embolsou R$ 2,55 bilhões de 85 empresas. Na reta final da campanha, resolveu mudar de ideia. Consultores do setor estimam que a virada possa gerar pedidos de indenização de até R$ 120 bilhões. Agora fica a pergunta: qual gringo vai querer investir no Brasil? Se Lula ganhar e essa conta explodir, resta saber quem irá financiá-la. Pela atual bússola, nossos próximos colonizadores talvez falem mandarim.
Além do rombo que essa guinada ainda pode gerar, há outra ironia. Depois de lucrar bilhões com o vício, o governo agora quer aplicar tratamento de choque no viciado. Só que as apostas não desaparecem num passe de mágica. Parte desse mercado pode simplesmente migrar para a clandestinidade, onde a fiscalização é menor e os controles contra lavagem de dinheiro são mais frágeis. Ou seja, na tentativa de fechar a porta das bets legais, o governo corre o risco de abrir uma avenida para o crime organizado.
É nesse Brasil polarizado, juridicamente instável e cada vez mais assombrado pelo narcoestado que o jogo pode virar. Com Jair Bolsonaro fora de cena, Flávio Bolsonaro entra do outro lado do palco, não apenas como herdeiro político do pai, mas como aposta para enfrentar Lula no ato seguinte. Para assumir esse papel, no entanto, o sobrenome não bastava; era preciso um roteiro que dialogasse diretamente com o medo do eleitor. É por isso que a segurança está no centro de seu projeto de governo, com a promessa de tratar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações narcoterroristas e sufocar financeiramente as facções. Na economia, seu plano inclui redução do tamanho do Estado, corte de ministérios e cargos, retomada das desestatizações e maior controle dos gastos públicos. Diferente de seu adversário, o Senador já avisou que não pretende perder tempo com promessas mirabolantes: “Não vou ficar prometendo picanha se está faltando aspirina.”
Flávio herdou o sobrenome, a base, os aliados e boa parte das bandeiras do pai. Herdou também a rejeição, as controvérsias e os inimigos. Mas estava longe de ser um novato na política, chegando à disputa presidencial depois de quatro mandatos como deputado estadual e quase oito anos no Senado. A novidade estava no figurino. Desde o início da campanha, passou a insistir na união da direita, pedir o fim das disputas internas e adotar um tom mais moderado, numa tentativa de preservar a essência do bolsonarismo sem carregar consigo aquele permanente estado de ebulição. A nova postura serviu para organizar a casa da direita, mas não desarmou seus inimigos. Pelo contrário, ao tentar se colocar como o candidato da ordem e da prudência, Flávio deu aos críticos o pretexto perfeito para vasculhar suas próprias contradições.
O caso mais conhecido é o das chamadas “rachadinhas” em seu antigo gabinete na Alerj, que levou o Ministério Público do Rio a denunciá-lo, em 2020, por supostamente comandar um esquema de recolhimento de parte dos salários de assessores. O senador sempre negou participação, as principais provas acabaram anuladas pelo STJ e pelo STF. Assim, o caso foi encerrado sem condenação. Mais recentemente, o financiamento de Dark Horse voltou a colocá-lo sob escrutínio. As investigações no celular de Daniel Vorcaro revelam que Flávio Bolsonaro cobrou do banqueiro parcelas de um repasse de R$ 61 milhões negociado para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro, estrelada por Jim Caviezel. O senador argumenta que agiu estritamente como um filho em busca de patrocínio privado, sem qualquer contrapartida ou uso da máquina pública. O problema é que, quando o Banco Master desmoronou, o dinheiro do filme também entrou na mira das investigações.
Fica cada vez mais claro que, nessa fábula tropical, não existe a opção de ser mocinho. O sistema brasileiro parece funcionar sob uma espécie de chantagem velada, um campo minado de processos, interesses, favores e vulnerabilidades. Com muita gente poderosa enroscada nas mãos dos togados, sempre há um motivo bem cabeludo para pensar duas vezes antes de contrariar quem está com a caneta na mão. E Daniel Vorcaro parece ter compreendido essa engrenagem como ninguém.
Em meio a esse bangue-bangue eleitoreiro, Lula e Flávio disputam os holofotes, mas algo mais interessante acontece na plateia. Depois de tantos escândalos, processos e acusações acumulados ao longo dos anos, a procura pelo candidato imaculado tornou-se uma missão impossível. Resta pesar pecados, comparar riscos e, eventualmente, fazer vista grossa para aquilo que parece menor. A política brasileira virou um exercício de redução de danos. E nada alimentou mais essa aliança do que a forma como o governo passou a tratar a criminalidade. Para essa plateia, o Planalto parece empenhado em inverter a lógica moral, reescrevendo quem é o vilão da história.
Em outubro de 2025, questionado na Indonésia sobre a ofensiva de Donald Trump contra o narcotráfico, Lula produziu uma daquelas frases difíceis de ouvir: traficantes seriam também “vítimas dos usuários”. Meses depois, a divergência ganharia contornos ainda mais claros. Paralelamente à resistência do presidente em classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, Flávio Bolsonaro foi a Washington defender justamente esse enquadramento. Em junho de 2026, as duas maiores facções brasileiras foram oficialmente classificadas pelos Estados Unidos como organizações terroristas estrangeiras.
O contraste expunha uma das diferenças mais evidentes entre os dois projetos: a forma como cada um pretende enfrentar o crime. E, quando digo crime, estou falando de arma na cabeça e sequestro de ônibus estudantil, não de crime de opinião. Esse último, como já sabemos, pode dar cadeia. Em relação às facções criminosas, Lula aposta em aumentar a presença do governo federal, integrar melhor as forças de segurança e criar um Ministério da Segurança Pública. Flávio segue por outro caminho. Quer endurecer as penas, tratar facções e milícias como narcoterroristas, reforçar as fronteiras e ampliar os presídios. No fundo, a diferença vai além da segurança. Lula aposta em criar mais uma estrutura, engordando o Estado com mais cargos, despesas e burocracia. Flávio propõe justamente o contrário, enxugar essa máquina, cortando pelo menos dez ministérios, além de cargos e despesas. São duas respostas quase opostas ao mesmo dilema. Um acredita que o Estado precisa crescer para funcionar melhor; o outro, que precisa encolher.
Mas a discussão sobre o crime organizado já ultrapassou qualquer disputa por programa de governo. O crime, que durante décadas era assunto marginal, agora deixa rastros em lugares bem mais sofisticados. As facções não habitam apenas o morro, o presídio ou a boca de fumo. Movimentam dinheiro, infiltram-se em negócios legais, disputam territórios e buscam espaço também na política. Combater essa infiltração tornou-se, assim, prioridade máxima e uma das principais bandeiras da campanha de Flávio Bolsonaro. O candidato, porém, tampouco chega a essa disputa livre de controvérsias, e sua trajetória oferece aos adversários munição de sobra. Afinal, em Brasília, o que não faltam são esqueletos no armário.
A política brasileira às vezes lembra o julgamento final de O Auto da Compadecida, quando os pecados de cada personagem são colocados na balança e se descobre que ninguém chegou até ali exatamente imaculado. O Palhaço ironiza a plateia como se todos ali fossem santos, incapazes de maldade, mesquinhez, julgamento ou avareza. Entretanto, Suassuna lembra um pequeno detalhe ao público: quem está assistindo também tem o que colocar na balança. Com esse Judiciário orwelliano, há sempre dois pesos e duas medidas. Resta saber se as urnas dirão o mesmo.
Talvez o nosso tempo já não nos conceda a possibilidade de escolher o melhor, se é que algum dia realmente tivemos esse privilégio. Talvez nos reste a tarefa mais difícil de todas: olhar para candidatos imperfeitos sem transformar nenhum deles em santo ou demônio. Afinal, fora das fábulas, escolhas têm consequências, e são elas que ajudam a definir a sociedade em que iremos viver. No fim, esta reflexão também é pessoal. Quero que meus filhos cresçam em um Brasil onde possam andar pelas ruas sem medo, prosperar sem culpa e voar sem temer os tentáculos do Grande Irmão. Um país em que a segurança não seja o alívio humilhante de simplesmente não ter sido assaltado, fraudado ou atingido por algum golpe absurdo, como já aconteceu comigo. E onde a promessa de igualdade não termine transformando mediocridade em virtude e sucesso em pecado. Insistir na Fábula do 13, na minha leitura, significa continuar girando em falso, presos às próprias contradições.
Heróis e vilões continuam disputando nossa atenção, mas talvez o personagem mais perigoso desta história nunca tenha precisado subir ao palco. Ele cresce nas sombras. Ocupados demais com o bom e velho “pão e circo”, quase não percebemos uma estrutura que avança sem vestir vermelho ou verde e amarelo, aparecer no horário eleitoral ou pedir voto. Para prosperar, bastam dinheiro, território, influência e acesso. Talvez o capítulo mais sombrio dessa fábula não seja escrito pela direita ou pela esquerda, por Lula ou Flávio, mas por quem controla boa parte do Brasil com um fuzil na mão.
Quando o crime já não precisa enfrentar o Estado porque aprendeu a penetrá-lo, a pergunta deixa de ser apenas quem governará o país e passa a ser também quanto desse avanço estamos dispostos a tolerar antes que seja tarde demais. É nesse ponto que a palavra “narcoestado” deixa de soar como simples hipérbole de campanha. Não para afirmar antecipadamente que o Brasil já se tornou um, mas para perguntar quanto tempo falta para cruzarmos essa fronteira. E, como vimos nestes dois artigos, esquerda e direita partem de valores bastante diferentes diante dessa ameaça. Por isso, pense bem antes de apertar confirma.
Já a história de como chegamos à beira desse abismo é difícil demais para caber nas últimas linhas deste artigo. Será a próxima.








