Toda nação tem suas fábulas. Algumas são habitadas por fadas, elfos, cavaleiros e princesas. A nossa, por Saci-Pererê, Mula sem Cabeça e políticos que, de tempos em tempos, ascendem à categoria de criaturas mitológicas. No Brasil, personagens de carne e osso rapidamente adquirem poderes sobrenaturais: salvadores viram lendas, adversários se transformam em monstros e fatos inconvenientes evaporam com a naturalidade de uma maldição contada na varanda. A certa altura, já não sabemos onde termina a política e começa a ficção. Talvez por isso nossas eleições sejam menos disputas entre projetos de país e mais batalhas entre personagens cinematográficos, em que cada candidato já entra em cena com trilha sonora e roteiro pronto. Para entender o enredo que nos trouxe até aqui e, sobretudo, descobrir quem acabou pagando a conta dessa superprodução, precisamos rebobinar a fita até 2022.
Naquele outubro, o Brasil chegava às urnas ainda tentando juntar os caquinhos de um país dividido e profundamente abalado pela pandemia do Covid-19. Quando o pior finalmente começou a ficar para trás, havia sangue nos olhos e uma necessidade quase primitiva de encontrar culpados. Mais do que uma disputa por votos, a eleição de 2022 tornou-se um plebiscito emocional entre duas metades do país, cada qual convencida de encarnar o bem e combater o mal.
De um lado, um presidente cuja própria identidade política havia sido condensada numa lenda — Jair Bolsonaro assumia a retórica incendiária e antissistema que o havia transformado, simultaneamente, em “Mito” de uns e espantalho de outros. Bolsonaro deu voz e identidade a uma direita que há anos permanecia adormecida no Brasil. Mas, paradoxalmente, a mesma rebeldia que o projetou como justiceiro e símbolo anticomunista se tornaria seu tendão de Aquiles. Do outro lado, Luiz Inácio Lula da Silva ressurgia sob o manto de outro arquétipo. Para quase metade do país, sua volta era o pesadelo de ver o criminoso retornando impune à cena do crime. Para a outra metade, porém, os 580 dias de prisão deixaram de ser atestado de culpa para compor a jornada do herói injustiçado. O pai dos pobres emergia das cinzas revestido do antídoto que iria salvar o Brasil do ódio, nascia o “Mártir”. Estava montado o cenário para uma das maiores operações de rebranding político da história recente do Brasil.
Machista, homofóbico, racista, fascista, genocida, os rótulos atribuídos a Bolsonaro se acumulavam até transformá-lo no inimigo perfeito, a personificação do ódio. O “ninguém solta a mão de ninguém”, mantra da resistência ao seu governo desde 2018, voltou a ecoar, trazendo consigo a ideia de que era preciso permanecer unido diante do apocalipse que parecia se anunciar. Como um cupido certeiro, o marketing petista mirou diretamente o coração do eleitor com um slogan simples, mas hipnótico: “o amor vai vencer o ódio”. A eleição deixava de ser apenas uma disputa entre candidatos para assumir contornos quase existenciais. Era preciso juntar as mãos, derrotar o ódio e impedir o armageddon.
Mas a propaganda política ainda reservava sua forma mais sensorial e eficiente para outro órgão humano: o estômago. O brasileiro voltaria a comer picanha, e Lula fazia questão de temperar o prenúncio evocando uma cena quase palpável, com aquela “gordurazinha” passada na farinha, acompanhada de uma cervejinha gelada. A prosperidade deixava de ser uma abstração econômica para ganhar cheiro, gosto e memória afetiva — capaz de dar água na boca até de quem comia picanha toda semana. A certa altura, já não se sabia se o brasileiro estava sendo convidado a escolher um presidente ou a comparecer a um churrasco.
A campanha foi um hit publicitário, e assim Lula voltou ao poder acusando seu adversário de provocar genocídio, violência e miséria, enquanto prometia fartura, paz e defesa da democracia. Havia, porém, uma ironia particularmente indigesta naquele discurso. Ao mesmo tempo que os mais vulneráveis permaneciam no centro das promessas, à espera do banquete prometido, a carne nobre continuava engordando os poderosos. Aos mais pobres, restava sobretudo a velha rede de proteção do Bolsa Família, principal vitrine do Partido dos Trabalhadores. Necessária para milhões de brasileiros, ela também revela uma contradição difícil de ignorar: em 2026, nove estados ainda contabilizavam mais famílias no programa do que trabalhadores com carteira assinada. Se a promessa era emancipação, quando exatamente começa a porta de saída?
Ao final do mandato, a picanha não estava sobre a mesa, mas a conta já estava no bolso do brasileiro. Sob Lula 3, o poder de compra da população se deteriorou, a violência explodiu e as contas públicas mergulharam ainda mais no vermelho. Em 2026, a criminalidade já aparece como a maior preocupação no Brasil, enquanto 19% da população afirma viver em áreas dominadas por facções criminosas — cinco pontos percentuais acima do registrado um ano antes. Além de viver sob o cano de um revólver, o brasileiro ainda carrega nas costas uma dívida bruta que chegou a R$ 10,8 trilhões, o equivalente a 81,9% do PIB. O governo caminha para encerrar o mandato com o maior déficit nominal médio das últimas duas décadas, superando inclusive Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro, mas a comparação esconde uma diferença fundamental. Bolsonaro atravessou o rombo extraordinário provocado pela pandemia e terminou 2022 com superávit primário, enquanto a deterioração fiscal do período Dilma já vinha acompanhada de déficits e das irregularidades que ficaram conhecidas como pedaladas fiscais. O grande milagre redentor não passava de um estelionato moral.
Para quem ainda esperava um final feliz para essa fábula tupiniquim, restou descobrir que, por trás da nova roupagem, estavam os mesmos vícios de um velho companheiro. Não pretendo reabrir os antigos arquivos do lulopetismo — o Mensalão e a Lava Jato já são clássicos de outra época. As novas tramas de Lula 3 são particularmente mais ousadas e assustadoras. Nos escombros do poder, os esquemas se mostraram ainda mais aprimorados, envolvendo fraudes, empresários, banqueiros e fortunas bilionárias. E, para não fecharmos os olhos a essa realidade antes de ir às urnas, precisamos assistir a esses enredos com atenção. Então, senhoras e senhores, preparem a pipoca (já que a picanha não veio). Temos o desprazer de apresentar a mais nova superprodução brasileira: Parasília — Os Parasitas de Brasília.
A Farra do INSS abre nossa série com um dos maiores escândalos financeiros da história recente, não apenas pelos valores desviados, mas pela crueldade de sua engrenagem. Não bastasse a frustração no prato dos mais pobres, descobrimos que havia gente metendo a mão no bolso dos velhinhos. E o escândalo ganhou contornos ainda mais incômodos quando as investigações da Polícia Federal esbarraram em Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, hoje alvo de três inquéritos da PF por suspeitas de corrupção e tráfico de influência envolvendo empresas e órgãos do governo federal.
No centro dessas investigações estava Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, apontado como um dos pilares financeiros do esquema. Centavo por centavo, o golpe inseria mensalidades indevidas diretamente na folha de pagamento de aposentados. Quando o sistema foi aberto para contestações, o estrago veio à tona. Até o fim de 2025, mais de 6,2 milhões de pedidos não reconheciam os descontos, escancarando uma matemática perversamente simples: não era preciso assaltar um banco quando se podia surrupiar milhões de velhinhos.
Mas seguir o dinheiro era meramente o prelúdio do enredo. À medida que a Polícia Federal esquadrinhava os contatos e negócios do Careca, os vínculos com a “família do amor” começaram a se desenhar. Embora Lulinha não aparecesse como participante direto da fraude do INSS, seu nome surgiu no material apreendido, revelando uma proximidade que lançava nova luz sobre o trânsito privilegiado do Antunes nas estruturas do governo e as portas que encontrava abertas pelo caminho. Foi então que entrou em cena Edson Claro Medeiros Jr. Ex-diretor comercial de uma das empresas do esquema, ele relatou à polícia que o filho do presidente teria viajado com Careca pela Europa para tratar de negócios, e que receberia R$ 25 milhões pela suposta intermediação de um contrato bilionário com o Ministério da Saúde. Entre as mensagens entregues à investigação, o empresário aparecia ainda ordenando a transferência de R$ 300 mil para “o filho do rapaz”. Depois de abrir o jogo, Edson Claro afirmou ter sido ameaçado de morte.
A trama ganharia uma reviravolta explosiva com a entrada em cena de Roberta Luchsinger, personagem que surgia justamente na ponte entre o filho do presidente e o Careca do INSS. Amiga de Lulinha, Roberta confirmou à Polícia Federal ter sido a responsável por apresentar os dois — uma conexão que se tornou o alvo central da PF em meio às suspeitas de tráfico de influência no governo. Mas a ligação não parava na apresentação. As autoridades identificaram ainda R$ 1,5 milhão em pagamentos feitos pelo Careca à empresa de Roberta, o que levantou a suspeita de que ela pudesse atuar também como intermediária de repasses a Lulinha. Na definição de Alfredo Gaspar, relator da CPMI do INSS, o primogênito já não seria um mero coadjuvante, mas a “estrela da corrupção”.
No entanto, o “pai do rapaz” roubaria a cena mais uma vez. Mensagens obtidas pela PF mostraram ainda a lobista vangloriando-se de seu acesso ao Planalto, afirmando que o presidente lhe dera “carta branca” para escolher um posto em seu governo. Questionado por Renata Vasconcellos sobre sua relação com Roberta durante a sabatina do Jornal Nacional, Lula fingiu demência: disse não conhecer a empresária, nunca tê-la visto e jamais ter conversado com ela, finalizando com o adágio de que “malandro é igual em qualquer lugar do mundo”. Uma ironia deliciosa vinda de quem parece ter redigido essa cartilha. O problema de mentir na era digital é que o algoritmo costuma ser implacável. Na mesma hora, as redes sociais começaram a devolver a memória esquecida em forma de fotografias publicadas pela própria Roberta, sorridente ao lado do ‘desconhecido’ em diferentes ocasiões, inclusive durante a campanha de 2022. O escândalo que começara no bolso dos aposentados havia chegado ao filho do presidente, atravessado personagens de seu entorno político e terminado com o próprio Lula diante das câmeras negando conhecer uma mulher com quem aparecia repetidamente fotografado.
Mas a distorção da realidade em pleno horário nobre não se limitou às amizades inconvenientes. Na mesma entrevista, o autoproclamado salvador também reescreveu os números da economia, afirmando ter herdado um país estagnado e as contas públicas no vermelho — descrevendo no ar, com impressionante cinismo, o exato cenário de ruína que seu próprio governo entregaria quatro anos depois. No entanto, nenhuma dessas mentiras provocou contestação dos entrevistadores. O que não causa espanto algum: não fosse o esforço hercúleo da Rede Globo para pavimentar seu caminho de volta ao Planalto, talvez Lula nem estivesse sentado na cadeira presidencial.
O governo do amor chega ao fim do mandato com uma fraude bilionária contra aposentados e um Estado cada vez mais caro para um brasileiro cada vez mais apertado. Faltou picanha no prato e sobrou a dolorosa para os velhinhos. O abismo entre o marketing da esperança e o inventário da realidade tornou-se, no mínimo, repugnante. Mas, se a Farra do INSS já parecia estofo suficiente para escandalizar a nação, o roteiro guardava o seu ápice mais sombrio para a segunda temporada: O Rombo Master. Inspirado nos sete pecados capitais, o escândalo une dinheiro, poder e luxúria numa trama de somas bilionárias, prisões e personagens perigosamente próximos ao poder. Contudo, o clímax dessa temporada guardava algo ainda mais pútrido, quando a corrupção começou a escalar os degraus da República até alcançar o próprio Planalto.
Em 2025, o avanço das investigações escancarou uma engenharia financeira tão sofisticada na aparência quanto rudimentar na essência. O Banco Master, de Daniel Vorcaro, teria negociado com o BRB, banco público controlado pelo Distrito Federal, cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consideradas inexistentes ou sem lastro. Para quem não entende financês: eram bilhões que pareciam muito bonitos na planilha, mas começavam a desaparecer quando alguém perguntava onde, exatamente, estava o dinheiro. E o desfalque bilionário seria apenas o começo. Quando o Banco Central levantou o tapete, revelou-se nos bastidores uma extensa teia de relações políticas ligadas à órbita petista.
Documentos apontaram R$ 14 milhões pagos pelo Master à consultoria de Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda de Lula e Dilma, e pelo menos R$ 6,1 milhões ao escritório ligado à família de Ricardo Lewandowski, que se tornaria ministro da Justiça de Lula. Era evidente que o banqueiro transitava muito além dos ministérios, alcançando os andares mais altos do poder. Em dezembro de 2024, quando o Banco Master já despertava questionamentos graves no mercado, Daniel Vorcaro foi recebido pelo próprio Lula no Palácio do Planalto, em uma reunião fora da agenda oficial. Em outras palavras, enquanto o banco afundava em problemas, seu dinheiro e seu dono tinham passe livre na Esplanada.
A proximidade política ganharia contornos ainda mais incômodos em junho de 2026, quando Jaques Wagner, líder do governo Lula no Senado e um dos petistas mais próximos do presidente, tornou-se alvo da Operação Compliance Zero, sob suspeita de receber vantagens e repasses milionários ligados ao Master. Quanto mais fundo se cavava, mais o crime de colarinho-branco, até então cercado de ternos, gabinetes e cifras bilionárias, começava a descer alguns andares. As investigações apontam que os principais fundos ligados ao universo financeiro do Master eram administrados pela Reag Investimentos — empresa também investigada na Operação Carbono Oculto, que mirou estruturas financeiras associadas à lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). E, quando o capital de um banco atrelado ao governo cruza com a lavanderia do maior cartel do país, proteger segredos e silenciar testemunhas torna-se vital. É justamente aí que entra em cena mais um personagem folclórico — desta vez, para fazer o trabalho sujo.
O escolhido para o trabalho carregava um apelido que parecia ter saído diretamente do thriller policial de Denis Villeneuve: Sicário. Em português, o termo designa um matador contratado — e era assim que aparecia identificado Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apontado pela Polícia Federal como responsável por coordenar atividades de monitoramento, levantamento de informações e intimidação em benefício do grupo conhecido como “A Turma”. Segundo as investigações, o núcleo era encarregado de perseguir e intimidar adversários do banqueiro, entre ex-funcionários e concorrentes. Conforme apurado pela CPI do Crime Organizado, Vorcaro chegou a pedir que ele simulasse um assalto e agredisse o jornalista Lauro Jardim. Difícil imaginar um personagem mais apropriado para o lado noir dessa história.
Poucas horas depois da prisão, o episódio ganharia contornos macabros. Detido pela Polícia Federal em Belo Horizonte, Sicário foi encontrado morto na cela no mesmo dia, em circunstâncias tratadas como suicídio. Material comprometedor, suspeitas de chantagem, gente poderosa e uma morte à la Jeffrey Epstein dos trópicos formavam o terreno perfeito para que teorias florescessem. Mas, conspirações à parte, uma pergunta tornava-se inevitável: que tipo de blindagem oficial permitia que uma engrenagem mafiosa operasse livremente sob o nariz da República? A resposta estava no celular de Vorcaro.
Entre os documentos encontrados pela Polícia Federal no aparelho de Daniel Vorcaro estava um contrato do Banco Master com a Barci de Moraes Sociedade de Advogados, banca integrada por dois filhos de Alexandre de Moraes e comandada por sua esposa, Viviane. O acordo previa cerca de R$3,6 milhões por mês durante três anos, podendo chegar a R$131 milhões. Não restrito a uma causa determinada, permitia ao escritório representar o Master perante diferentes órgãos e Poderes. Mas o contrato exorbitante era apenas a ponta do iceberg; os arquivos apreendidos guardavam uma surpresa consideravelmente mais explosiva.
Um relatório recente expôs mensagens e encontros que indicam uma proximidade perturbadora entre Daniel Vorcaro e o próprio Alexandre de Moraes. Acuado às vésperas de ser preso, o banqueiro recorreu ao togado para tentar frear o avanço das investigações, perguntando se ele poderia interceder junto ao procurador-geral da República e ao diretor-geral da PF. Chegou a questionar se deveria fugir do país e, em outra mensagem, declarou ter “gratidão da vida” a Moraes. Como se o apelo informal não bastasse, a perícia encontrou também indícios de que o magistrado teria editado pessoalmente o contrato milionário de sua esposa, além de identificar cartões com limites de R$ 300 mil emitidos pelo banco para seus filhos. Fica cada vez mais evidente que o principal investimento do Banco Master era em Alexandre de Moraes. Diante de um acervo tão explícito, não havia mais como manter o enredo restrito aos gabinetes da Corte. Por isso, o ministro André Mendonça considerou os elementos relevantes o bastante para retirar o sigilo e cobrar manifestação da PGR. Foi esse despacho que abriu a Caixa de Pandora e transformou o escândalo em domínio público.
E não se enganem, essa novela está longe de acabar. A cada manhã, o brasileiro desbloqueia o celular com a adrenalina de quem acompanha uma série em tempo real, já na fissura do próximo capítulo. Coincidências improváveis e reviravoltas dignas das melhores produções do nosso Trashflix brotam com espantosa facilidade da promiscuidade intrínseca de Brasília. No mesmo palco em que o Master protagoniza um dos maiores escândalos financeiros do país, a trama alcança a família de um poderoso ministro do STF. Seguindo o rastro desse dinheiro, chegamos ao próximo episódio de Parasília, onde se desenrola a Ditadura de Toga.
Por definição, o Supremo Tribunal Federal deveria ser o guardião da Constituição e permanecer acima das forças políticas que disputa julgar. Nos últimos anos, porém, a Corte desceu para o centro do tabuleiro e ganhou de seus críticos a alcunha pouco honrosa de “Ditadura de Toga”. Poucas trajetórias ilustram melhor essa transformação do que a de Luiz Inácio Lula da Silva. Impedido de disputar a eleição de 2018, recuperou seus direitos em 2021 depois que Edson Fachin varreu para debaixo do tapete as condenações da Lava Jato, decisão confirmada pelo plenário. O Supremo não elegeu Lula, mas destrancou a porta para que ele voltasse ao trono. E, uma vez no Planalto, a distância institucional entre o presidente e os ministros do Supremo desapareceu como feitiço em conto fantástico.
As manifestações de 7 de Setembro de 2024 produziram uma fotografia particularmente simbólica desse romance. Enquanto Bolsonaro protestava na Avenida Paulista contra os abusos do STF e chamava Alexandre de Moraes de “ditador”, o ministro ocupava a tribuna de honra do desfile da Independência ao lado de Lula — uma camaradagem que se estenderia, horas depois, para um almoço no Palácio da Alvorada. De um lado, a oposição enfrentava a toga; do outro, o governo confraternizava com ela.
Mas foi justamente no campo das liberdades que a fábula começou a adquirir seus contornos mais orwellianos, e é preciso voltar alguns anos para entender como chegamos até aqui. No ano de 2019, o STF instaurou o polêmico Inquérito das Fake News, atropelando a atuação do Ministério Público e das autoridades policiais. Para selar o destino dessa investigação — batizada cirurgicamente pelo ministro Marco Aurélio Mello de “Inquérito do Fim do Mundo” —, a relatoria acabou entregue diretamente às mãos de Alexandre de Moraes, dispensando qualquer tipo de sorteio. O que nasceu sob a justificativa de investigar fake news, ameaças e ataques contra a Corte e seus ministros acabaria abrindo caminho para uma expansão sem precedentes da atuação do Supremo sobre o ambiente digital. Era como se o Ministério da Verdade de George Orwell começasse, pouco a pouco, a escapar das páginas de 1984.
E não demoraria para que a distopia escapasse das salas do Judiciário e fosse parar nas telas dos brasileiros. Sob a bandeira da defesa da democracia, o Brasil assistiu ao bloqueio nacional do X depois do confronto entre Alexandre de Moraes e Elon Musk e, meses depois, à suspensão do Rumble. Pela primeira vez, milhões de brasileiros descobriram que o acesso a uma plataforma inteira poderia desaparecer com uma canetada mágica. O precedente era inquietante: quando restringir a liberdade passa a ser apresentado como instrumento para protegê-la, a fronteira entre democracia e controle começa perigosamente a se embaralhar. É justamente por isso que algumas distopias envelhecem tão assustadoramente bem.
A esta altura, se o eleitor petista ainda não percebeu A Revolução dos Bichos se desenrolando diante de seus olhos, talvez seja porque tenha se apegado demais à fábula. Na sátira de Orwell ao comunismo soviético, os porcos lideram a revolução prometendo liberdade, justiça e igualdade aos animais da fazenda; uma vez no poder, porém, apropriam-se dos privilégios dos antigos donos até se tornarem indistinguíveis daqueles que haviam expulsado. Por aqui, o roteiro exige poucas adaptações.
Durante décadas, Lula fez carreira política apontando o dedo para o capitalismo, as elites e o establishment, sempre envolto no manto de defensor dos pobres e inimigo dos poderosos. Uma vez instalado nos andares de cima, porém, descobriu-se extraordinariamente confortável. Talvez não seja por acaso que certas fábulas atravessem os séculos encontrando novos personagens. O Lobo em Pele de Cordeiro, particularmente, parece lhe cair muito bem. No fim, a revolução dos porcos não derrubou a elite, apenas lhe trouxe novos companheiros. Se depois de tudo ainda acreditarmos que basta pintar novamente a fazenda de vermelho para mudar sua natureza, começo a desconfiar de que a única ruptura realmente eficiente virá do espaço. Vem, meteoro.
Ou talvez ainda exista uma última tentativa antes do impacto. Do outro lado dessa história está uma direita imperfeita, desorganizada e frequentemente especialista em sabotar a si mesma, mas que se apresenta como ruptura desse ciclo. Se ela representa uma saída ou apenas outro problema, será assunto para o próximo episódio.






