A minissérie Adolescência, lançada pela Netflix em 13 de março de 2025, tornou-se um fenômeno cultural ao abordar temas sensíveis como violência juvenil, bullying e a influência brutal das redes sociais sobre os adolescentes. Criada por Jack Thorne, a produção britânica de quatro episódios é notável por ser inteiramente filmada em plano-sequência, sem cortes, intensificando a imersão do espectador. No entanto, a construção narrativa da série recebeu críticas por seu viés ideológico em relação à criminalidade entre jovens, especificamente crimes contra mulheres. Para muitos, a obra simplifica uma questão complexa e negligencia aspectos fundamentais da adolescência contemporânea que mereceriam atenção, como o colapso da estrutura familiar, a solidão digital, o impacto da pornografia e a banalização da criminalidade. Ainda assim, Adolescência foi amplamente aclamada não apenas pela relevância de seu tema, mas também pela maneira como utilizou longos planos contínuos para aprofundar a imersão do público, consolidando-se como um marco cultural e educacional.
Estética Naturalista: como se estivéssemos lá
Cada vez mais, algumas produções audiovisuais têm recorrido a técnicas de filmagem específicas para capturar a atenção do espectador de forma visceral. O uso de luz natural, câmeras na mão e longas tomadas contínuas cria uma estética crua e intimista, fazendo com que o público se sinta quase um intruso silencioso na vida dos personagens. O resultado? Uma imersão que beira o desconforto. E é exatamente esse o objetivo.
Diretores costumam recorrer a closes e enquadramentos fechados para representar o olhar julgador que tantos adolescentes sentem pesar sobre si, seja da família, da escola ou da sociedade. Em Adolescência, essa sensação é levada ao extremo: a câmera fixa, sem cortes, nos insere em um ambiente de constante vigilância, espelhando com precisão o desconforto e a pressão típicos dessa fase. As cenas situadas na escola e na sala de aula amplificam essa sensação, onde o olhar crítico dos colegas e o temor constante do julgamento social instauram um clima sufocante. Não há corte para outro plano ou ângulo, nenhum respiro cinematográfico, a tensão se acumula lentamente e só encontra alívio no fim do episódio. Quanto menos cortes, mais ansiedade.
Esses recursos nos revelam a insegurança e a vulnerabilidade da adolescência, forçando-nos a habitar o desconforto ao lado do personagem, como se estivéssemos lá. Mas essa “hiper-imersão” não se constrói apenas pelas imagens, os sons exercem um papel fundamental na experiência cinematográfica. O uso de sons diegéticos — aqueles que fazem parte da cena, como silêncios constrangedores, o zumbido de corredores escolares ou o sussurro de conversas — intensifica a imersão emocional. Esses elementos nos colocam diretamente na pele do protagonista, provocando angústia ou até mesmo vergonha alheia. O som do silêncio é o som do constrangimento.
Agora que compreendemos a linguagem estética e os recursos narrativos utilizados em Adolescência, é hora de ir além da forma e mergulhar no conteúdo. Chegamos ao momento de adentrar o mundo das ideias, de desvendar a mensagem subjacente à trama, aquilo que se insinua por trás das imagens e gestos: a lógica da programação preditiva em ação.
Da Netflix para a sala de aula
Adolescência nos coloca dentro da experiência teen de modo cru, íntimo e perturbador. Tudo parece lento, exposto, inevitável, provocando uma experiência desconcertante e profundamente humana. A trama gira em torno de Jamie Miller, um garoto de 13 anos acusado de assassinar sua colega de classe, Katie Leonard. Ao longo dos episódios, acompanhamos as reações de sua família, da terapeuta e dos investigadores, mergulhando nas complexidades emocionais e sociais que cercam o caso. A narrativa destaca como Jamie foi influenciado por conteúdos misóginos e comunidades online conhecidas como “manosphere“, que promovem ideologias de ódio contra mulheres. Na perspectiva apresentada, ideias propagadas por essas comunidades desempenham um papel central na formação do comportamento violento de Jamie, atribuindo-lhes total responsabilidade pelo desfecho trágico que marca sua vida.
Jamie representa, em muitos aspectos, o arquétipo do jovem “incel” (celibatário involuntário): isolado, ressentido, inseguro em relação à própria aparência e incapaz de estabelecer conexões afetivas, especialmente com garotas. Sua frustração silenciosa evolui para uma visão distorcida do mundo, marcada por rejeição e ressentimento: elementos centrais da ideologia incel, como o “blackpill“, que prega o fracasso amoroso como inevitável e determinado por fatores biológicos. No universo incel, ser “blackpillado” significa aceitar que nunca haverá esperança de amor ou aceitação, o que pode levar a uma mentalidade fatalista, depressiva e, em alguns casos, perigosa. Também são citadas na série crenças como a “regra 80/20”, que afirma que 80% das mulheres são atraídas por apenas 20% dos homens, incentivando jovens a “enganar” garotas para obter atenção sexual. Essas ideias são exploradas como parte do processo de radicalização de Jamie, sugerindo que ele teria sido vítima das comunidades online que disseminam discursos misóginos, uma abordagem que recebeu críticas por ignorar ocorrências muito mais alarmantes e complexas de violência juvenil fora desse espectro ideológico.
No Reino Unido, por exemplo, a realidade é outra. Episódios muito mais alarmantes seguem sistematicamente ignorados pela mídia e pelo entretenimento, como a epidemia das grooming gangs, redes de aliciamento e abuso sexual de meninas vulneráveis que operam com a conivência ou a omissão de autoridades locais. Diferentemente da ficção produzida por Adolescência, esses crimes reais envolveram milhares de vítimas e revelaram um colapso institucional, ético e cultural que permanece mal resolvido. Ignorar esse contexto em nome de uma narrativa mais palatável, ou ideologicamente conveniente, evidencia o descompasso entre a arte e a urgência dos fatos.
Não obstante, o governo britânico adotou uma postura entusiástica diante da série, tratando-a quase como uma ferramenta redentora, uma espécie de Santo Graal do universo teen. O Estado, inclusive, vem promovendo a obra como recurso didático em escolas, na tentativa de conscientizar os jovens sobre os riscos da radicalização online, do discurso de ódio e da cultura da misoginia. A iniciativa, no entanto, foi duramente criticada por acadêmicos e membros da oposição política, que a veem como uma peça de manipulação — afinal, políticas públicas devem ser baseadas em pesquisas e evidências, não em uma série de ficção.
Em março de 2025, o líder do Partido Trabalhista e primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, recebeu os criadores da minissérie Adolescência para uma reunião, classificando a produção como um documentário. O encontro teve como foco central discutir estratégias para proteger crianças e adolescentes de ambientes virtuais nocivos, marcados pela disseminação de conteúdos tóxicos — especialmente ideologias misóginas propagadas em comunidades online. Durante a reunião, reforçou-se o compromisso do governo britânico com a segurança digital infanto juvenil, com destaque para a Online Safety Act, legislação que obriga plataformas digitais a garantirem experiências adequadas à idade dos usuários e a protegê-los contra conteúdos abusivos, perigosos e incompatíveis com seu estágio de desenvolvimento. Como resultado prático, a Netflix anunciou que a série será disponibilizada gratuitamente para todas as escolas de ensino médio do Reino Unido.
Segundo a psicóloga infantil e adolescente, Jacqueline Cochrane, o uso da série como ferramenta pedagógica é controverso. Ao abordar temas sensíveis como a violência juvenil, é essencial levar em conta a responsabilidade ética e o respaldo empírico necessário. Para ela, obras de ficção não devem substituir materiais educativos, sobretudo quando carecem de embasamento científico. “Isso pode causar efeitos adversos nos jovens, como medo e insegurança”, alerta.
“Adolescentes estão em uma fase crítica de formação de identidade e podem interpretar essas narrativas de maneira distorcida, assumindo que situações extremas são normais ou inevitáveis em suas próprias vidas.”
Jacqueline Cochrane
Nesse contexto, a medida executada por Starmer foi amplamente criticada, sobretudo pela falta de base científica que justifique o uso dessa série como referência. Para críticos da oposição, a série opera como um instrumento de controle social promovido por agendas progressistas, servindo de pretexto para restringir a liberdade de expressão e censurar as redes sociais sob o disfarce de proteger os jovens.
A ideologia por trás da narrativa
Apesar de abordar questões relevantes sobre os perigos das redes sociais, Adolescência gerou debates acalorados por sua representação da masculinidade tóxica e da radicalização juvenil. Críticos apontam que a série pode reforçar estereótipos ao associar jovens do sexo masculino à violência, aprofundando o distanciamento entre homens e mulheres. Com isso, muitos passaram a associá-la a ideologias progressistas que sustentam a ideia de que o Ocidente se estrutura sobre instituições patriarcais e capitalistas, ainda dominantes nas esferas sociais e econômicas. Em resposta, Jack Thorne afirmou que a intenção era provocar reflexão sobre como essas ideologias nocivas podem influenciar adolescentes, sem buscar culpados específicos. É como se a série sugerisse que o sistema não está equipado para lidar com a radicalização de jovens, e que, por isso, falha em contê-la.
Um exemplo claro da forma como a série fomenta a ideia de masculinidade tóxica surge quando a detetive Marsha Frank, em uma das cenas, desdenha esse tipo de conteúdo como “Andrew Tate shite” (algo como “baboseira do Andrew Tate”), associando de forma direta e pejorativa o influenciador ao comportamento incel de Jamie. A fala evidencia a intenção da narrativa em simplificar causas complexas da violência juvenil, reduzindo-as a um único agente cultural facilmente “demonizável”. Ex-kickboxer britânico-americano, Tate tornou-se uma figura polêmica nas redes sociais por seus discursos inflamados sobre masculinidade extrema, riqueza e dominação. O curioso é que poucos parecem notar o antagonismo entre Andrew Tate e o universo incel: Jamie está longe de representar um jovem adepto da supremacia da masculinidade tóxica. Para os incels, essa visão ignora a suposta verdade brutal de que apenas a genética determina o valor de um homem na sociedade. Na realidade, “blackpills” e “redpills” (adeptos de Tate) se odeiam e se atacam abertamente nas redes. Os incels desprezam figuras como Tate, pois os veem como inimigos de sua visão niilista.
Para Jordan Peterson, a inclusão de Andrew Tate na série não tem relação direta com o personagem Jamie, mas funciona como uma isca para quem não percebe o truque. A estratégia, segundo ele, é deliberada: diminuir a figura masculina perante a sociedade. A própria ascensão de Tate entre jovens do sexo masculino reflete uma resposta direta ao discurso ideológico progressista, que frequentemente os desmoraliza e os enfraquece. Em entrevista ao jornalista e apresentador Piers Morgan, Peterson explica que Tate se torna atraente justamente por representar, na superfície, força, sucesso e autossuficiência — atributos que ganham apelo entre jovens que se sentem isolados, inseguros e sem referências sólidas. Embora Peterson reconheça que Tate seja “um mau ator até a raiz”, ele alerta que, para muitos rapazes, é preferível se tornar “um pouco monstro” a continuar numa postura de dependência infantil. O desafio, segundo o psicólogo canadense, está em conduzir esses jovens por um caminho mais resiliente e duradouro: o da verdadeira civilidade, em que a força e a responsabilidade caminham juntas. Ignorar essa necessidade de estrutura e identidade tem, segundo ele, consequências graves, inclusive para as mulheres, que podem acabar ainda mais fragilizadas e distantes dos homens.
“As pessoas continuam insistindo, mas vão acabar descobrindo: acham que homens fortes são um problema? Esperem até produzirem homens fracos, ressentidos e amargurados pelo próprio fracasso — aí sim vocês verão problemas de verdade.”
Jordan Peterson
Outro exemplo do abismo entre os gêneros aparece quando Jamie intimida sua psicóloga durante as sessões de avaliação, encenando atitudes de dominação e desprezo por figuras femininas de autoridade, atitudes que são frequentemente associadas à retórica da masculinidade tóxica. Entretanto, é necessário considerar o contexto: trata-se de um adolescente acusado de assassinar brutalmente uma colega de escola. Um caso dessa gravidade exigiria um profissional altamente capacitado, com preparo emocional, técnico e experiência clínica. Colocar alguém que aparenta fragilidade e despreparo pode parecer um equívoco narrativo — ou, talvez, uma escolha deliberada para acentuar a tensão entre masculino e feminino. A presença de uma psicóloga aparentemente frágil diante de um jovem agressivo evidencia uma assimetria desconcertante, especialmente em uma sociedade que luta pela equidade de gênero. Essa dinâmica levanta uma questão incômoda: se os discursos pós-modernos defendem que mulheres devem ocupar espaços de autoridade com a mesma legitimidade que os homens, por que retratar essa personagem como emocionalmente despreparada para lidar com o conflito?
O uso da série como ferramenta acadêmica foi considerado uma medida controversa, inclusive por vozes progressistas. A feminista e psicóloga britânica Jessica Taylor, amplamente reconhecida por suas posições alinhadas à esquerda, sobretudo em questões de gênero, classe social e crítica institucional, publicou uma carta aberta condenando o uso de Adolescência como recurso educacional em escolas britânicas. Segundo ela, embora a produção tenha impacto dramático, não é adequada para prevenir comportamentos violentos, podendo inclusive traumatizar estudantes e reforçar estereótipos. A petição, assinada por mais de mil profissionais da educação e pais, contesta a proposta do primeiro-ministro Keir Starmer de exibir a série como medida contra a misoginia juvenil, defendendo que intervenções pedagógicas baseadas em evidências são mais eficazes e seguras.
Educação ou engenharia social?
Em abril de 2025, a líder da oposição e uma das principais figuras do Partido Conservador britânico, Kemi Badenoch, protagonizou um embate direto com os apresentadores da BBC ao ser questionada sobre a minissérie Adolescência. Badenoch surpreendeu ao afirmar que não havia assistido à série e que, provavelmente, não o faria. “Eu provavelmente não vou assistir”, disse ela, acrescentando que seu papel como política não exige que consuma produções de ficção para compreender os problemas da sociedade. A entrevista reacendeu o debate sobre a influência da mídia ficcional nas discussões políticas e na formulação de políticas públicas. Embora tenha reconhecido a importância dos temas tratados pela série, Badenoch defendeu que as decisões políticas devem se basear em dados concretos e evidências do mundo real, e não em enredos dramatizados. Ela reiterou seu compromisso com o enfrentamento de questões como o uso excessivo de smartphones por adolescentes, mas destacou que soluções devem vir de análises objetivas, não de meras narrativas televisivas. O episódio expõe a linha tênue entre cultura, percepção pública e formulação de políticas, levantando questionamentos sobre os limites da influência que obras de ficção devem exercer sobre a agenda política.
“Quer saber o que realmente me incomoda? É o fato de que, justamente ontem, o Partido Trabalhista anunciou que não vai investigar o escândalo das gangues de estupro, algo que aconteceu em todo o país. Isso é real. Está acontecendo agora. E, em vez de falarmos sobre isso, estamos discutindo uma série fictícia.”
Kemi Badenoch
Segundo o comentarista conservador Matt Walsh, a comoção em torno da série Adolescência no Reino Unido revela uma distorção deliberada da realidade. Ele critica o fato da produção ser tratada como um documentário e usada como ferramenta educativa nas escolas, pois a trama ignora os principais fatores associados à delinquência juvenil, como lares desestruturados, imigração em massa e jihadismo islâmico, para focar em um caso extremo e fictício. Para Walsh, ao retratar um jovem de família estável que comete um assassinato após ser supostamente “doutrinado” por comunidades online e influenciadores como Andrew Tate, os criadores eliminam a responsabilidade parental e substituem causas reais por narrativas ideológicas. Em vez de debater a verdadeira violência masculina, como estupros coletivos e aliciamento de meninas, a série, segundo ele, prefere fantasiar sobre um garoto de família que mata por influência digital, mascarando dados com fantasia.
Do ponto de vista psicológico, Jacqueline Cochrane avalia que a probabilidade de um adolescente cometer um crime como o retratado na série é baixa, embora, infelizmente, não seja inexistente. A maioria dos jovens que sofrem bullying e são expostos a conteúdos tóxicos na internet não chegará a atos de violência extrema. O risco mais comum e alarmante, segundo ela, é o suicídio. No entanto, o cenário muda quando múltiplos fatores de risco se sobrepõem. “Isolamento social, transtornos mentais não diagnosticados, exposição contínua à violência digital, ausência de apoio emocional familiar e a falta de intervenções preventivas nas escolas criam um terreno fértil para desfechos trágicos”, explica. Cochrane também aponta falhas institucionais, como a carência de suporte psicológico no ambiente escolar, como agravantes silenciosos dessa realidade.
Além do universo incel
William Costello, considerado o principal pesquisador da cultura incel no mundo, diz que o caso retratado na série Adolescência não é prototípico do cenário britânico, tampouco representa fielmente o universo da manosphere ou de seus seguidores. Em entrevista ao podcast Modern Wisdom, ele explica que “há uma razão pela qual histórias envolvendo incels chamam tanta atenção, e pode ser extremamente perigoso não compreender a fundo o que está por trás desse fenômeno”. Ele cita como exemplo o caso de Jake Davidson, o único assassino incel conhecido no Reino Unido, cujos vídeos foram amplamente divulgados pela mídia local. De acordo com Costello, há indícios de que esses criminosos extremistas — como atiradores em massa — buscam uma causa, muitas vezes com o objetivo específico de alcançar notoriedade. Por isso mesmo, defende-se o protocolo de não-notoriedade, no qual a mídia evita transformar esses indivíduos em heróis ou anti-heróis. Outro efeito colateral apontado é a popularização de termos e conceitos antes restritos a nichos obscuros da internet, como a manosphere, que agora alcançam o grande público. Para Costello, o foco midiático em jovens que se identificam como “celibatários involuntários” acaba desviando a atenção de problemas mais urgentes, como a escalada dos crimes com faca no Reino Unido: um fenômeno que, segundo ele, já configura uma epidemia nacional de violência armada.
Para William Costello, a série Adolescência pode estar gerando um efeito reverso: além de alimentar críticas sobre um possível uso da produção como justificativa para medidas draconianas de controle da internet, a famigerada censura nas redes, ela ainda levanta suspeitas de instrumentalização estatal. “A arte sempre foi usada para subverter o sistema. Adolescência parece mais uma ferramenta armada a favor do governo — e isso é algo novo”, afirma Costello, lembrando que até mesmo setores da esquerda, como a feminista Jessica Taylor, já expressaram preocupações semelhantes em petições públicas.
Toda panela tem sua tampa
Mais do que distorcer a realidade, Adolescência pode funcionar como um gatilho perigoso para jovens vulneráveis e descrentes. Ao não se basear em pesquisas e evidências sólidas, a série corre o risco de inspirar comportamentos indesejados, ao conferir visibilidade, e até certo glamour, a crimes cometidos contra mulheres. A notoriedade, nesses casos, é um fator crítico, pois, para alguns, a mera possibilidade de ter sua história retratada em uma produção audiovisual pode funcionar como incentivo. O tiro pode sair pela culatra. Como mencionei em meu artigo anterior sobre Luigi Mangione, o assassino que se tornou símbolo de uma justiça distorcida e exaltado como anti-herói, esse tipo de narrativa pode romantizar o transgressor em vez de alertar sobre os riscos reais. Pior,: pode despertar o monstro adormecido em adolescentes frágeis que, na verdade, só precisavam de escuta, orientação e propósito. Ninguém está condenado a ser um “celibatário involuntário”, toda panela tem sua tampa. É preciso paciência, autoconhecimento e, acima de tudo, saber onde procurar.







